O que o amor por Odete Roitman esconde?

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Discutir qual a melhor versão da novela — se é a original, a atual ou até a menos falada versão hispânica (sim, Vale Tudo já teve outra versão) —, as tretas de bastidores, a atuação dos atores e atrizes, as falhas de continuidade ou a quantidade de merchandising, entre tantas outras coisas, contribuíram para a falação da novela. Ou, numa expressão mais moderna, gerou discussão nas redes, teve engajamento.

A personagem de quem mais se tem falado é a famosa Odete Roitman, que despertou atentos olhares para si, por muitos motivos. Em 1988, o público desejava sua morte, algo que gerou um forte questionamento até de sua intérprete, a atriz Beatriz Segall, quando disse que a Odete deveria ser julgada e condenada, porque no Brasil não havia, e não há, pena de morte de maneira oficial. Matar a Odete seria uma característica de uma ação de justiceiros.

Pois bem, agora o público deseja que o assassinato, mesmo já tendo sido gravado, seja uma armação da personagem, que estaria viva. Até aí, tudo bem — faz todo o sentido, dentro do arco dramático criado para tal. Caso a vontade do povo seja aceita, o que viria depois? Se isso acontecer, seria a voz de Deus? Afinal, dizem as más-línguas, que a voz do povo é a voz d’Ele. Mas onde está a procuração escrita e assinada por Deus, dando plenos poderes para o povo falar em seu nome?

Posso acreditar que o charme, a competência, o talento e o estudo de Débora Bloch, ao interpretar a personagem, contribuíram para esse desejo do povo. Outro ponto importante, é lembrar que a personagem, por mais interessante que fosse de ser vista, era cruel, racista, classista — um rosário inteiro de características indesejáveis pela maioria. Pelo menos de forma falada, nem sempre silenciada. Uma mulher que dizia suas verdades, e até as de outras pessoas, de uma forma peculiar, mas também de forma imprópria, muitas vezes “fora da lei”, o que já seria motivo para uma punição pela própria lei.

Uma arrogância disfarçada de elegância — afinal, seus gestos, figurinos e até a respiração da atriz levavam a seu excelente desempenho. Ter que passar por cima de inimigos ou pequenos desafetos causava espanto e insatisfação.

O que é assustador, é que as pessoas desejam que ela sobreviva. Para quê? Para pagar por seus crimes ou para celebrar e triunfar sobre esse país insuportável, como ela mesma gritava a todo vapor, graças a todo o seu lastro de vilania?

Personagens bem escritos e interpretados provocam catarse — e foram escritos para isso. Aprender com esses personagens, o que queremos ou o que não queremos ser, é importante. Identificar-se com eles, em alguns aspectos, também faz sentido, e é tão importante quanto utilizá-los como válvula de escape. Talvez dizer aquilo que eu penso e não deveria falar. Ultrapassar essa linha é perigoso. A linha entre o que podemos e o que devemos, conscientes ou inconscientes, é bem fina.

Por que tanto amor por Odete? Qual lugar ela ocupa na cabecinha do público? E na de seus criadores — Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères?

Talvez eles — e ela — não tivessem a noção da repercussão, mas acredito que tinham o desejo. Afinal, é o que espera quem escreve: ser lido, assistido, comentado. A escritora da adaptação também pensou nisso, acredito. A produção da emissora de telenovelas não mediu esforços — talvez mais do que em outras produções — para fazer o público se interessar pela novela. No entanto, a megaprodução pode ter sido o gatilho, mas não a motivação para o amor por uma vilã.

A famosa pergunta “Quem matou?” não foi criação dessa novela, mas a maior repercussão foi dela. Qual o sentimento que está por trás dessa admiração? Quem dera ter a resposta — talvez assim eu não precisasse fazer a pergunta do início do texto.

Quero acreditar que um dos motivos — mais um, talvez o maior — seja o fato de mostrar uma mulher em cargo de chefia, livre, independente, que escolhe e paga por seus amantes. Uma mulher empoderada, talvez seja esse o nome. Porém, no entanto e contudo, era uma mulher perigosa, que cometeu alguns crimes — inclusive assassinato.

Sou Mário José Santana Vieira
Psicólogo (CRP03/18273) | Escritor | Pedagogo
Curso livre: Psicologia Junguiana
“Ajudo você a lidar com seu sofrimento psicológico”