Basta chegar o horário da escola — seja na entrada ou na saída — para observarmos a quantidade de pessoas; sejam elas mães, pais, avós, irmãos, irmãs, babás e tantos outros; carregando as mochilas das crianças, enquanto as conduzem para a escola ou de volta para casa.
Esse seria um gesto de carinho, cuidado e proteção… se não o olharmos com mais atenção. Esse olhar, eu sempre tive. Sempre questionei tal atitude e, antes que pareça grosseria ou insensibilidade, quero deixar claro: trata-se, muitas vezes, de um ato impensado por parte dos adultos que o praticam.
Vamos lá: ora, a mochila é da criança. Logo, cabe a ela carregá-la. Não adianta dizer que o peso é enorme, que a mochila é grande ou qualquer outra justificativa. A solução também é simples: se for pesada ou grande demais, troque por uma menor ou reduza o material, mas deixem as crianças carregarem suas mochilas.
Vamos avançar um pouco, depois voltamos. É função dos professores e professoras ensinar (e tudo o que isso possa significar), mas é função da criança aprender. Explico melhor essa ideia. Muitas vezes, pais e mães reclamam com os professores dizendo: “Meu filho não está aprendendo!”. Essa frase acaba sugerindo uma culpabilidade exclusiva de quem ensina. A resposta possível seria: “Eu estou ensinando. Se ele não está aprendendo, podemos dialogar. Mas a minha função estou cumprindo.”
A criança, o adolescente, o aprendiz… são os responsáveis por suas próprias aprendizagens. O que observo é uma transferência dessa responsabilidade para os professores. As famílias não pagam — direta ou indiretamente, por meio de impostos — para que a criança aprenda, mas para que a escola ensine. Quando a criança não aprende, é necessário buscar orientação e possíveis soluções. Talvez ela enfrente dificuldades por alguma deficiência intelectual, transtorno, carência alimentar, afetiva, ou até mesmo devido a uma metodologia inadequada. Após a avaliação, busca-se resolver a situação. Mas não se deve esquecer: a responsabilidade de aprender é do/a aprendiz; a de ensinar, é do/a professor/a.
Voltando à mochila: deixar que os verdadeiros donos e donas a carreguem é uma forma de dizer: “Você é responsável pelos seus instrumentos de aprendizagem!” Quando você a carrega por eles, já está transferindo essa responsabilidade.
Uma das primeiras — e grandes — lições na educação infantil é quando a criança, após brincar, guarda seus próprios brinquedos. Algumas mães e pais, ao verem as/os professoras/es incentivando isso, ficam desesperados. Já escutei: “Meu filho não está aqui pra isso. A obrigação é da professora.” Não, a obrigação é da criança. Se ela fosse orientada a fazer isso também em casa, não teria essa dificuldade na escola.
“Vou brigar com a professora que não deixou Maria ir ao banheiro.” A frase poderia ser: “Vou brigar comigo mesmo, que não dei limites à Maria, a ponto de ela ir ao banheiro sempre que deseja — muitas vezes sem necessidade, apenas para fazer o que quer.” No caso do banheiro, bastaria uma conversa com a escola para entender a situação. E, antes disso, se a criança tiver alguma necessidade especial, como precisar ir ao banheiro com frequência, isso deve ser informado. Muitas vezes, o que acontece é: Maria vai, sim, ao banheiro. Mas, às vezes, a professora pede “só um minutinho” e pergunta se ela pode esperar mais um pouco — apenas para que Maria compreenda limites, algo essencial ao desenvolvimento, inclusive no controle dos esfíncteres, por exemplo.
Mais uma vez, voltando às mochilas — e agora sendo mais provocador: será que, quando essas crianças forem adultas e, durante uma relação sexual, tiverem esquecido o preservativo, vão recorrer à mamãe e ao papai para que comprem e levem imediatamente? Ou vão culpá-los, em caso de gravidez ou infecções sexualmente transmissíveis, por não terem levado o preservativo?
Alguns podem dizer que estou exagerando. Ok, estou! Mas… o que estou dizendo faz algum sentido?
Deixem as crianças carregarem suas mochilas!
Assim como precisam — e precisarão — carregar seus desconfortos, conflitos e sofrimentos…
Mário José Santana Vieira
Pedagogo e Psicólogo – CRP 03/18273
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